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Ancoragem com Poita Dupla para Pesca de Fundo em Barra Bonita

Ancoragem com Poita Dupla para Pesca de Fundo em Barra Bonita

Quem já passou algumas horas sobre as águas da represa de Barra Bonita sabe muito bem: o vento muda de direção sem avisar, as correntes de superfície brigam com as correntes de fundo e, quando menos se espera, o barco está girando sobre si mesmo justo na hora em que a vara dava sinal de uma fisgada. É aí que a ancoragem com poita dupla entra em cena como uma das técnicas mais eficientes para quem quer pescar de fundo com estabilidade e precisão.

Se você está começando agora na pesca esportiva nas represas do interior paulista, este guia vai te mostrar passo a passo como montar e usar o sistema de duas poitas em pontos clássicos de Barra Bonita — como a foz do Rio Piracicaba, as pedras do remanso de Igaraçu do Tietê e os paredões próximos à barragem. Vamos conversar sobre equipamento, posicionamento e os erros mais comuns de quem tenta pela primeira vez.

Por que ancorar com duas poitas em Barra Bonita?

Barra Bonita é uma represa de porte considerável, com mais de 300 quilômetros de perímetro e vocação clara para pesca de espécies de fundo como mandis, piaparas, curimbas e os cobiçados tucunarés em determinadas épocas do ano. O problema é que, por ser um reservatório longo e estreito em muitos trechos, o efeito “corredor de vento” é brutal, principalmente nas tardes de primavera.

Uma única âncora ou poita permite que o barco gire 360° em torno do ponto de fixação. Isso bagunça as linhas, muda constantemente o ângulo do seu chumbo em relação à isca e, pior, pode fazer você perder a leitura do fundo que levou tanto tempo para encontrar na sonda.

Com poita dupla, o barco fica travado em uma posição fixa, de proa para a corrente ou para o vento dominante. Suas varas trabalham sempre no mesmo ângulo, as iscas permanecem no raio exato onde você identificou o cardume e a leitura do bote da fisgada fica muito mais limpa.

Vantagens práticas que você vai sentir no primeiro dia

  • Estabilidade para pescar com várias varas sem embolar linhas
  • Precisão para manter a isca exatamente sobre pedras, troncos ou valas
  • Conforto maior para fotografar, filmar ou simplesmente almoçar sem perder o ponto
  • Segurança reforçada em dias de vento forte

Equipamentos necessários

Antes de sair do rancho, confira a lista básica. Nada do que vou listar aqui é caro ou difícil de encontrar nas lojas de Barra Bonita, Jaú ou Igaraçu do Tietê.

  • Duas poitas de 8 a 15 kg cada (prefira as de concreto com alça de ferro)
  • Duas cordas de polipropileno de 10 mm, com no mínimo três vezes a profundidade do ponto
  • Dois mosquetões ou manilhas de aço inox
  • Duas boias sinalizadoras (opcional, mas recomendado)
  • Luvas de proteção para manusear as cordas molhadas

Uma dica de pescador antigo: amarre um pedaço de corrente de 50 cm entre a poita e a corda principal. Isso ajuda a manter a tração horizontal no fundo e evita que a poita “ande” durante marolas mais fortes.

Passo a passo da ancoragem dupla

Agora vem a parte prática. Esse procedimento funciona melhor com dois pescadores a bordo, mas pode ser feito sozinho com um pouco de prática.

1. Identifique o ponto na sonda

Navegue devagar pelo trecho escolhido e marque na sonda a estrutura de fundo — pode ser uma pedra submersa, uma vala do antigo leito do rio ou uma mudança brusca de profundidade. Em Barra Bonita, as cotas entre 8 e 14 metros costumam concentrar peixes de fundo.

2. Avalie o vento e a corrente

Desligue o motor por 30 segundos e observe para onde o barco deriva. Essa é a sua linha natural de deriva, e as duas poitas serão posicionadas em pontos opostos a ela.

3. Solte a primeira poita contra o vento

Posicione-se cerca de 20 a 30 metros à frente do ponto desejado, no sentido contrário à deriva. Solte a primeira poita lentamente, pagando corda à medida que o barco recua com o vento ou a corrente. Nunca jogue a poita de uma vez — ela pode enroscar na própria corda.

4. Solte a segunda poita a favor do vento

Quando o barco atingir o ponto exato, continue deixando-o derivar mais 15 a 20 metros. Solte então a segunda poita. Volte puxando a corda da primeira até que o barco fique centralizado entre as duas poitas.

5. Ajuste a tensão

Amarre as duas cordas na proa (nunca na lateral — isso vira o barco em caso de rajada) e ajuste até que ambas fiquem igualmente tensionadas. Pronto, você está travado.

Pontos clássicos para testar a técnica

Algumas regiões da represa respondem muito bem à ancoragem dupla:

  • Foz do Rio Piracicaba: excelente para mandi-amarelo e curimba, principalmente no verão
  • Remanso de Igaraçu do Tietê: pedras submersas com ótima concentração de cascudos e piaus
  • Paredões próximos à barragem: profundidades maiores exigem cordas mais longas, mas o resultado em piaparas compensa
  • Boca do Córrego Lavapés: ponto tradicional para pesca noturna de bagres

Erros comuns de quem está começando

O primeiro erro clássico é usar corda curta demais. A regra dos três comprimentos de profundidade existe por um motivo: menos que isso, a poita simplesmente arrasta pelo fundo em qualquer rajada mais forte.

Outro deslize frequente é ancorar em cima de bancos de pedras muito acidentados. A poita pode ficar presa de forma irrecuperável. Prefira fundos com cascalho, areia compactada ou lama firme.

E, por fim, nunca ancore em canais de navegação. Barra Bonita tem tráfego intenso de barcaças da hidrovia Tietê-Paraná, e um barco ancorado no meio do canal é um risco gravíssimo.

Hora de molhar a linha

Dominar a ancoragem com poita dupla é um daqueles aprendizados que separa o pescador casual do pescador consciente. Depois de algumas pescarias praticando a técnica, você vai perceber que seu rendimento aumenta, as perdas de equipamento diminuem e aquela sensação de controle sobre o barco traz um prazer extra para o dia inteiro na represa. Barra Bonita recompensa quem respeita suas particularidades — e boas poitas fazem parte dessa conversa com as águas do velho Tietê.

BR

Bruno Bracaioli

Editor